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Thursday, December 22, 2005


A ÚLTIMA ÁRVORE

Os primitivos habitantes da Ilha de Páscoa, viveram 700 anos completamente isolados em um pedaço de terra de 14 quilômetros, no meio do nada. Por isso, eles acreditavam que o mundo inteiro se resumia à ilha e ao mar sem fim. Chefe Miac também acreditava nisso.

Seu irmão Leba, líder da outra metade da ilha, achava que devia haver algo além do oceano, mas sabia que seu povo estava tão isolado quanto se pode estar no universo. Por isso, Leba pregava que não existia um eu individual. A vida seria mais fácil se cada indivíduo fosse como uma ilha aberta, um abrigo no qual a tribo inteira vive, a floresta cresce e o mar sustenta. Leba temia que os humanos se tornassem perigosamente selvagens e individualistas na Ilha de Páscoa.

Na metade da ilha liderada por Leba, existia uma grande floresta, de onde se extraía a madeira para a construção de canoas, cordas e instrumentos de pesca. Leba cuidava para que cada árvore só fosse derrubada depois que duas outras germinassem.

O território governado pelo chefe Miac não tinha árvores, mas lá ficava o único reservatório de água doce da ilha: um lago pantanoso na cratera do extinto vulcão de Páscoa. Além disso, o vulcão era uma ótima pedreira, onde artistas esculpiam imensas estátuas moais, usadas no culto aos Deuses Argonautas.

O comércio entre as tribos pascoenses era essencial para a sobrevivência de todos. Madeira por água e rochas. Nunca a globalização foi tão simples e perfeita. Então, começou a grande seca e o nível do lago desceu como nunca antes.

Durante os anos de estiagem, chefe Miac passou a exigir cada vez mais madeira em troca da água que fornecia ao clã do irmão. Sem alternativa, Leba cedeu à chantagem e logo sua grande floresta se transformou em um pequeno bosque.

O desequilíbrio no comércio tornou a tribo de Miac muito mais rica e afortunada do que o clã vizinho. Os escultores de Miac passaram a construir estátuas moais colossais de vinte, até trinta metros de altura. As esculturas de rocha maciça eram transportadas para perto do mar em imensas plataformas de madeira, puxadas por grossas cordas.

Quando o bosque foi reduzido a um arvoredo, Leba decidiu que não permitiria a derrubada de mais nenhuma árvore. Em represália, Chefe Miac cortou o fornecimento de água para o habitantes do território vizinho. E simplesmente esperou pelo inevitável.

Passadas duas semanas, aconteceu o que Miac esperava. Os integrantes do clã de Leba assassinaram seu próprio líder. Derrubaram todas as árvores da ilha e entregaram os últimos troncos à Miac, em troca de água para beber. No dia seguinte, choveu. E não parou de chover por vários dias.

Quarenta anos depois, quando os primeiros espanhóis desembarcaram na Ilha de Páscoa, encontraram o cenário do fim do mundo. O que mais lhes chamou atenção foi a ausência completa de árvores. Nem mesmo um simples arbustro.

Os pascoenses não tinham canoas ou instrumentos para pescar e viviam como animais, escondidos em cavernas, comendo raízes e qualquer coisa que se movesse. O canibalismo se tornara uma prática comum entre os humanos da lha de Páscoa. E por toda parte podiam ser vistas centenas de enormes esculturas, estranhamente tombadas e vandalizadas por hordas furiosas.

O filósofo havaiano O'kik reflete sobre o que passou na cabeça dos pascoenses quando a última árvore foi decepada: Será que gritaram "emprego sim, árvores não!" Ou "não temos provas concretas de que há risco de extinção, é preciso mais estudos". Ou ainda, "a proibição da atividade madeireira é movida por ambientalistas xiitas". Nunca saberemos. E afinal, o que nós aprendemos na Ilha de Páscoa?

O Presidente Shub não liga a mínima.

Aproveite e preserve o caminho.


3 Comments:

Blogger Camila Cabete said...

Sensacional! Posso usar esse texto com os meus alunos?!

6:12 PM  
Blogger Os Argonautas said...

Claro, puxa, seria uma honra! Obrigado!
Se alguém se interessar por mais detalhes, o estudo científico do caso da Ilha de Páscoa está no livro "Colapso - Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso", do bio-geógrafo Jared Diamond.
Valeu!

3:55 AM  
Anonymous Anonymous said...

Não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar.

10:34 PM  

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