
GOL DE BICICLETA
Taí um negócio do barulho. Sempre tentei fazer gols de bicicleta nas peladas do colégio. Tentei até não ter mais nenhum uniforme limpo de terra, para desespero de quem os lavava. Nunca consegui.

Em 82, o menino tinha nove anos e duas paixões: quadrinhos e futebol. A casa, o quintal, a rua, o canil, tudo ficou cheio de bandeirinhas verde e amarelas. Recortou, colou e só não pendurou porque não dava altura. Tudo pronto para o maior acontecimento da sua vida: a Copa do Mundo!
No álbum de figurinhas eles pareciam gigantes. Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, eram como super-heróis de quadrinhos.
Invencíveis.
Havia também um atacante, que apesar de reserva, tinha o nome certo: Roberto Dinamite!!! Para arrumar essa figurinha, gastou mais de vinte outras em negociações nos recreios. Não completou o álbum (aquelas figurinhas fizeram falta), mas o Dinamite está lá. Pronto pra explodir as redes.
Houve jogos em que tudo parecia perdido. Coração na goela até o fim e sempre vencíamos. Nos quadrinhos também era assim. O inimigo nunca ganhava. A Itália não daria nem pro começo.
No álbum de figurinhas eles pareciam gigantes. Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, eram como super-heróis de quadrinhos.
Invencíveis.Havia também um atacante, que apesar de reserva, tinha o nome certo: Roberto Dinamite!!! Para arrumar essa figurinha, gastou mais de vinte outras em negociações nos recreios. Não completou o álbum (aquelas figurinhas fizeram falta), mas o Dinamite está lá. Pronto pra explodir as redes.
Houve jogos em que tudo parecia perdido. Coração na goela até o fim e sempre vencíamos. Nos quadrinhos também era assim. O inimigo nunca ganhava. A Itália não daria nem pro começo.
Logo no começo, Paolo Rossi, sujeito raquítico e branquelo, fez o primeiro gol. Ah, o roteiro. Previsível e divertido. Quando tudo parece perdido, os heróis salvam o dia. Empatamos. Rossi marcou mais um e... nada de novo nessa estória, empatamos outra vez, claro. A igualdade nos bastava. Mas heróis não empatam. Vencem. E pro garoto, empatar com esses bundas de chuchu é derrota. Então, uma pequena tragédia aconteceu.
No terceiro gol dos azuis, as veias esverdeadas, saltadas no braço
esbranquiçado do algoz, o fizeram ver a verdade. Rossi não era o fio de gente, que não pagava nem o pavio do Dinamite como figurinha de álbum. Rossi era o gênio do mal, que em vez de sangue, tinha kriptonita nas veias. O dia era de Rossi, o mundo da Itália, e não poderia mais ser salvo.Naquele dia, a infância do menino começou a terminar. Soltem os fogos, prendam o cachorro, deixem as bandeiras penduradas, façam o tempo voltar, como no filme do Superman.
Perto da grande final, o avô morreu. Nunca ninguém tão próximo havia morrido. Isso só acontecia na televisão em horários impróprios. O avô era alegre, brincalhão e, melhor de tudo, se vestia de Papai Noel no natal. Um super-herói de verdade para os netos. O menino descobriu que heróis são derrotados e podem até morrer, como todo mundo.Ficou tão triste, que a mãe quis dar um presente. Sabendo do gosto por futebol, o levou a uma loja de camisas oficiais de seleções. O paraíso na terra para um garoto de nove anos. Podia escolher a que quisesse. Camisas multicoloridas em profusão, ao alcance da mão. Outro no seu lugar talvez nem
soubesse escolher. Não hesitou nem por um instante.Na missa de sétimo dia, as pessoas vinham falar com ele e riam..., como se fosse um grande comediante, capaz de fazê-las sorrir na hora solene.
Distribuía o folheto de orações vestindo uma camisa tinindo de nova. Azul, número 20. A camisa de Paolo Rossi. A preferida durante anos, até não caber mais. Com ela, quase fiz gol de bicicleta. Um dia ainda faço.
Aproveite o caminho.




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