
A ESTRELA GUIA
Ano 2.999, 24 de dezembro.
Observatório Solar em Vênus.
Cientista reza.

“Senhor, eu apenas imagino o que seja rezar. Invejo os antigos. Eles tinham um Deus para culpar. Eu queria ter um nesta noite de natal.
Ano 2.999, 24 de dezembro.
Observatório Solar em Vênus.
Cientista reza.

“Senhor, eu apenas imagino o que seja rezar. Invejo os antigos. Eles tinham um Deus para culpar. Eu queria ter um nesta noite de natal.
Fizemos da Terra um lugar sombrio e indigno. Foi nessa época que nasceu um menino de olhos azuis, primeiro clone perfeito do grande Einstein.
Replicamos milhares de vezes os mais brilhantes dentre nós e os treinamos, desde a infância, para que superassem seus originais em talentos e prodígios. As descobertas se atropelaram sem descanso, iluminando todos os campos do conhecimento, todos os dias. Os sábios apontaram o Caminho para grandes navegações. Deixamos o planeta natal e colonizamos a Lua, Marte, Vênus e Titã. Criamos admiráveis mundos novos, Senhor.
Fizemos chover milhares de vezes o dilúvio bíblico sobre superfícies áridas e estéreis. Oceanos vermelhos foram povoados por zilhões de microalgas e sua extraordinária fotossíntese. E logo viscejaram campos verdes cobrindo com plantações sem fim a paisagem desolada. Rebanhos de seres com os quais o Senhor nunca sonhou, engordaram na sombra de árvores que arranham o céu. A razão triunfou sobre a superstição. 

Afinal, dizem os sábios da última geração, Deus é uma ficção. Pois se podemos explicar tudo cientificamente, tudo menos o Senhor, então é absolutamente lógico que Deus não exista, a não ser na imaginação dos nossos antepassados, fruto da ignorância pré-histórica diante dos
insondáveis mistérios do universo. E hoje, continuam os sábios, podemos comemorar o fim de todos os mistérios. Sabemos as respostas de todas as perguntas (De onde viemos? Para onde vamos?) e não dependemos mais de um Manipulador Universal para justificar a nossa própria existência. Festejaremos porque somos sábios. Enquanto os sábios falam, eu observo o Sol. 
insondáveis mistérios do universo. E hoje, continuam os sábios, podemos comemorar o fim de todos os mistérios. Sabemos as respostas de todas as perguntas (De onde viemos? Para onde vamos?) e não dependemos mais de um Manipulador Universal para justificar a nossa própria existência. Festejaremos porque somos sábios. Enquanto os sábios falam, eu observo o Sol. 
O Sol é a fonte da vida, o manancial de onde se extrai a energia que move todos seres vivos nos planetas a sua volta. Mas o Sol também é uma imensa esfera de gás queimando em ritmo lento e inexorável enquanto consome a sua própria matéria, devorando a si próprio numa autofagia que os leigos chamariam de canibalismo suicida. E no fundo é apenas uma estrela, como tantas outras, que tornam as noites menos escuras em mundos distantes. 

A maioria das estrelas cumpre o seu ciclo vital de maneira previsível: nascem, brilham e, cedo ou tarde, simplesmente apagam. Mas, duas ou três vezes a cada mil anos, o universo nos mostra quanto somos insignificantes. Por um breve instante, uma única estrela brilha mais do que todos os sóis do universo juntos. Brilha porque arde em fúria, consumindo em míseros segundos toda a energia que deveria sustentá-la acesa bilhões de anos.
Durante este pequeno Big Bang chamado Super Nova, mundos inteiros são lançados em chamas, lambidos pelas labaredas do astro suicida que os aquecia. Esta exibição de grandeza, nos lembra penosamente que somos mortais. Contemplando o Sol agora, eu me lembro. 

Na noite de natal, depois que a ceia foi interrompida por alarmes de emergência, enquanto eu posso apreciar em cores vivas toda a magnitude da tempestade solar que se prenuncia, eu faço esta prece, Senhor.
Faço esta prece pelos bilhões que queimarão em silêncio, alimentando o incêndio sem saber o que lhes aconteceu. Faço esta prece por mim mesmo, orando para que o nosso sacrifício não tenha sido em vão, Senhor.”
Um clarão, um breve calor e o silêncio. Sete planetas, sua gente e seus sonhos evaporam numa espiral de partículas e poeira cósmica.


Ano 3.999, 24 de dezembro. 
No deserto de um planeta sem nome.
Três criaturas se movem na escuridão da noite.

No deserto de um planeta sem nome.
Três criaturas se movem na escuridão da noite.
Caminham em círculos cegos na imensidão do deserto, enquanto procuram um sinal dos céus que ilumine a sua busca sagrada. Esperam pacientemente que seu Deus lhes mostre a luz.
Então, pouco antes do nascer do dia, fez-se a luz. A mesma luz que viajou pelo universo por mil anos e atravessou galáxias desabitadas para brilhar agora no céu do planeta sem nome. Iluminando a noite no
deserto com o brilho fulgurante de uma Super Nova na constelação da Via Láctea. Mais forte do que todo o firmamento, baixo sobre o horizonte do leste, como um farol na alvorada oriental a orientar os três escolhidos. Eles seguem a estrela guia, levados para o seu destino pelo símbolo da morte de um Sol distante.
deserto com o brilho fulgurante de uma Super Nova na constelação da Via Láctea. Mais forte do que todo o firmamento, baixo sobre o horizonte do leste, como um farol na alvorada oriental a orientar os três escolhidos. Eles seguem a estrela guia, levados para o seu destino pelo símbolo da morte de um Sol distante. A busca chegou ao fim. Encontram um estábulo, um homem e uma mulher. Uma linda mulher que recém dera à luz a um menino. O Messias que eles esperavam.
Aproveite o caminho. 





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